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PRODUÇÃO CIENTÍFICA

Atividade Sexual e Arritmias Cardíacas
Leandro Zimerman

Entre as perguntas mais feitas pelos pacientes quando se indica redução de atividade física, está a que se refere à atividade sexual. “Posso fazer? Há algum cuidado especial?” Sabe-se que o risco de óbito durante a atividade sexual é baixo, sendo responsável por 0,6% dos casos de morte súbita. A atividade sexual costuma elevar pressão arterial e freqüência cardíaca. Dados coleados em indivíduos saudáveis e em cardiopatas mostram um pico de freqüência cardíaca entre 104 e 131bpm, pressão arterial sistólica entre 150 e 180mmHg e um consumo de oxigênio em torno de 6 METs, principalmente no momento do orgasmo.


Para se avaliar o risco de eventos arrítmicos e isquêmicos que isto pode significar, devem-se levar em conta, além das variações individuais observadas em parâmetros metabólicos e hemodinâmicos, as diferentes formas de atividade sexual e o estresse emocional. Sabe-se, por exemplo, que é mais comum o desencadeamento de eventos cardíacos isquêmicos em homens durante relacionamento sexual extraconjugal, provavelmente devido ao esforço despendido e à ansiedade de desempenho. 


Em relação às arritmias especificamente, Drory Y e colaboradores compararam a incidência de arritmias ventriculares em pacientes cardiopatas isquêmicos estáveis durante teste de esforço e atividades diárias com aquela observada durante atividade sexual. Foram 88 pacientes, nos quais se observou a presença de extrassístoles ventriculares em 49 (56%) durante atividade sexual e 38 (43%) durante exercício. Atividade ventricular complexa (taquicardia ventricular não sustentada, extrassístoles polimórficas, pareadas ou bigeminadas) foi observada em 11 (12,5%) pacientes durante atividade sexual e 8 (9%) durante exercício. Exacerbação durante o sexo ocorreu em somente 11% dos pacientes que apresentaram arritmias, e não se observou correlação entre a presença de extrassístoles e de isquemia miocárdica. Os autores concluem que há pouca exacerbação durante o sexo, e as arritmias observadas foram de baixo risco.


Outros trabalhos na literatura apresentam dados conflitantes. Enquanto alguns mostram exacerbação, outros, como Garcia-Barreto e col., relatam que as arritmias tendem a ser menos aparentes durante o sexo do que nas atividades diárias. As recomendações desse documento, uma tentativa de consenso em relação ao manejo da disfunção sexual em pacientes com doença cardiovascular, não são muito esclarecedoras: a maioria é considerada de baixo risco; aqueles com arritmias não sustentadas de baixo risco são intermediários, os com arritmias de alto risco são de risco elevado.

 

Em relação ao uso do sildenafil, Vardi e colaboradores mostraram não haver aumento das arritmias ventriculares em pacientes com doença cardiovascular.

Para pacientes com cardioversor-desfibrilador, deve-se lembrar a possibilidade, já descrita, de haver choque, tanto pelo desencadeamento de taquiarritmias como pela possibilidade de taquicardia sinusal que chegue à zona de detecção. É importante, nessa situação, que se reafirme ao paciente que o(a) parceiro(a) não sofrerá danos físicos.


Por fim, pode haver bloqueio atrioventricular pelo aumento de freqüência sinusal, em pacientes com distúrbio severo na condução. Pessoalmente acompanhei uma paciente que fazia pré-síncope por bloqueio AV 2:1 sempre que se aproximava o orgasmo. Ao implantar o marcapasso, o quadro desapareceu por completo, causando inclusive certo desapontamento por parte do marido, que achava ser o causador daquela sensação extrema na esposa.


Em suma, a atividade sexual costuma ser de baixo risco para o desencadeamento de arritmias malignas. Pacientes, no entanto, com quadros cardiovasculares de alto risco e instáveis, com restrição a atividades físicas, devem ser cuidadosamente avaliados antes de se dar uma orientação em relação à sua atividade sexual.


Jornal Sobrac, Out/Dez 2008

Referências

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3.    Drory Y, Fisman E, Shapira Y, Pines A.  Ventricular arrhythmias during sexual activity in patients with coronary artery disease.. Chest 1996; 109: 922-924
4.    Drory Y. Sexual activity and cardiovsacular risk. Eur Heart J 2002; 4: H13-H18
5.    Garcia-Barretto D, Sin-Chesa C, Rivas-Estany E, et al. Sexual intercourse in patients who have had a myocardial infarction. J Cardiopulm Rehabil 1986; 6:324-28
6.    Ueno M. The so-called coition death. Jpn Legal Med 1963; 127:333-40
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8.    Vardi Y; Bulus M; Reisner S et al. Effects of sildenafil citrate (Viagra) on hemodynamic parameters during exercise testing and occurrence of ventricular arrhythmias in patients with erectile dysfunction and cardiovascular disease. Eur Urol.  2003; 43(5):544-51
9.    DeBusk R; Drory Y; Goldstein I ET al Management of sexual dysfunction in patients with cardiovascular disease: recommendations of The Princeton Consensus Panel. Am J Cardiol.  2000; 86(2):175-81
10.    Muller JE.  Sexual activity as a trigger for cardiovascular events: what is the risk? Am J Cardiol.  1999; 84(5B):2N-5N

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