Em nenhuma hipótese as orientações e dados divulgados devem substituir aquelas recomendadas individualmente pelo seu médico assistente.
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Mudança de hábito alimentar
Dr. Fernando Lucchese

Este é o mais difícil dos desafios para o cardiologista e escritor com 1,5 milhão de livros vendidos sobre vida saudável e estilo de vida.

Quando um médico prescreve uma nova dieta, inicia-se um processo de transformação no paciente que ainda não foi estudado convenientemente. Parece simples. Mude-se isso ou aquilo na alimentação e os objetivos serão atingidos. Nada disso.

A maioria dos hábitos é adquirida na infância, segundo alguns até 3 ou 4 anos de idade. É justamente nesse período precioso da vida que se forma o caráter, a estrutura da personalidade do futuro adulto. Fala-se até que com a aquisição da linguagem ocorre a afirmação da identidade, uma vez que crianças educadas em ambiente bilíngue mais facilmente apresentam desvios de comportamento na adolescência.

Pode ser que isto tudo não seja verdadeiro, mas é claríssimo que o hábito alimentar correto ou errado se estabeleceu na infância. A pressão da mãe sobre a criança para que coma, seja forte, é inesquecível. Quem de nós não se lembra do encorajamento em cada refeição: "coma, limpe o prato, cada grãozinho de arroz deixado ai é um presente para o diabinho".

Fomos criados debaixo de um sonoro "mangia che te fa bene". Passamos a vida ouvindo nosso subconsciente repetir este estimulo à obesidade. Crianças magras estiveram fora de moda durante décadas. Crianças que comiam muito eram o orgulho dos pais enquanto os outros só causavam preocupação. O reino era dos reluzentes "bebês Johnson", cheios de dobrinhas, rechonchudos e felizes, cujas fotos eram expostas nas farmácias, nos supermercados, e na sala de visita das mães orgulhosas.

Os lindos bebês não imaginam o estrago que fizeram em sua geração. Seria interessante obter a informação de quantos deles se tornaram  adultos obesos. Obesidade e beleza passaram a ser sinônimas. A escalada da obesidade em nosso país nos resgatou de incômodo índice de 30% de desnutridos para 30% de obesos em apenas duas décadas.

Existe também o DNA da obesidade ou como queiram chamar, atavismo da raça, memória das gerações, memória das células etc. A verdade é que muitos dos nossos avós e bisavós imigrantes passaram fome e usavam como norma um refrão assustador: "coma quando puder porque você não sabe quando comerá de novo".

Armazenar era a ordem dos tempos. Armazenar nas prateleiras, nos celeiros, na dispensa ou no guarda-comidas. Mas, principalmente, no abdômen, na cintura abdominal, na papada, nos braços e nas pernas. Armazenar para sobreviver. Nossas células ficaram marcadas por essa experiência de sobrevivência e passaram a integrar esta absurda informação às gerações seguintes, como parte de um pacote dentro do qual havia outros hábitos de maior ou menos virtude.

Comportamentos herdados ou adquiridos, principalmente na infância, geram o adulto de hoje, obeso, sedentário, com grande cintura abdominal e intolerância progressiva à glicose. A escalada do diabetes e da hipertensão são a prova desse crime que se praticou com a geração adulta de hoje.

É fácil mudar? Não é muito difícil. Mudanças de hábito exigem processos complexos de superação. Porém o desafio deve ser enfrentado em busca da longevidade perdida. A busca do padrão alimentar ideal é o grande objetivo da pesquisa atual. Mas além de saudável o alimento dos novos tempos deve ser saboroso e agradável à visão e ao olfato porque  nossas células estão acostumadas a isso e não se adaptarão a uma vida sem prazer. E o prazer é essencial para uma vida saudável e feliz.


Mudança de hábito alimentar