Em nenhuma hipótese as orientações e dados divulgados devem substituir aquelas recomendadas individualmente pelo seu médico assistente.
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INFORMAÇÕES SOBRE CIRURGIA DO CORAÇÃO

Cirurgia de Válvula Cardíaca - Parte 2
Dr. José Dario Frota Filho

PROBLEMAS VALVARES E SEUS DIAGNÓSTICOS
 
Estenose
 

Estenose é o estreitamento da abertura de uma válvula, que resulta em fluxo sangüíneo reduzido na mesma. A principal causa é a calcificação resultante de envelhecimento ou doenças como febre reumática, infecções e anomalias congênitas. Outras causas incluem endocardite bacteriana e doença venérea.
 
Com exceção da estenose causada por anomalias congênitas, o desenvolvimento de uma válvula com estenose começa com a formação de cicatrizes nas cúspides da válvula, causadas por doença, infecção etc. Com o tempo, dois processos podem ocorrer: o tecido cicatricial se acumula, levando ao espessamento e à perda da flexibilidade das cúspides, ou o tecido cicatricial mais grosseiro acaba servindo de local para calcificação, ou seja, o cálcio presente no sangue se deposita ali, formando massas calcificadas, que, por sua vez, reduzem a flexibilidade das cúspides.
 
À medida que os folhetos da válvula perdem flexibilidade, aumenta a estenose na válvula, e a área pela qual o sangue flui é gradualmente reduzida. Assim, cada vez menos sangue pode passar pela válvula a cada contração. À medida que aumenta a resistência ao fluxo sangüíneo na válvula, a câmara cardíaca anterior àquela válvula encontra pressões cada vez maiores. Com o tempo, essa pressão aumentada força gradualmente os músculos da parede da câmara, que respondem tornando-se mais espessos. O resultado é um coração aumentado. Essa condição não deve ser confundida com o coração normal, maior e mais forte, de um atleta, por exemplo. O coração aumentado, ao contrário, significa simplesmente a presença de distensão da câmara e aumento da massa muscular.
 
Um coração aumentado tem maior probabilidade de formação de coágulos, porque o sangue que volta para a câmara aumentada tende a estagnar. Quanto mais sangue se acumula no local, maior a possibilidade de formação de coágulo. Essa complicação aparece mais freqüentemente quando o coração não está em ritmo sinusal. (ver glossário)
 
Regurgitação (Insuficiência/Incompetência)
 

Quando uma válvula não consegue se fechar completamente, o sangue pode voltar 'para trás’, num processo chamado de regurgitação. As principais causas de insuficiência ou regurgitação são febre reumática, endocardite bacteriana, doença arterial coronariana e doenças venéreas.
 
Há três mecanismos pelos quais as infecções podem causar regurgitação. Primeiro, infecções podem causar lesões (cicatrizes ou pontos de atrito) nos folhetos da válvula. Esse tecido cicatricial pode se desenvolver a ponto de as cúspides se tornarem tão rígidas (com estenose) a tal ponto de não se fecharem mais corretamente, o que resulta em fluxo inverso pela válvula. Uma válvula pode ter insuficiência e estenose.
 
Em segundo lugar, infecções podem fazer com que o tecido se deteriore, se rompa ou forme orifícios nas válvulas ou na região em torno delas (vazamento perivalvar).
 
Em terceiro lugar, o bloqueio de uma arteira coronária devido à doença arterial coronariana pode ocasionar a disfunção dos músculos papilares (função inadequada ou prejudicada) em razão de um distúrbio no suprimento de nutrientes e oxigênio para o tecido muscular. Os músculos papilares são estruturas que se contraem para permitir a abertura das válvulas mitral e tricúspide.
 
Infecções e infarto do miocárdio também podem causar outros danos nas estruturas de suporte das válvulas, trazendo possíveis problemas para o seu fechamento. Bem como na estenose, a regurgitação pode progredir para estágios mais severos com o tempo, resultando na piora das condições e no início dos sintomas.
 
Em geral, embora os danos iniciais à válvula possam ocorrer precocemente na vida, os efeitos iniciais são moderados e o problema progride aos poucos. Embora algum grau de regurgitação ocorra com todas as válvulas, quando este chega a um nível significativo os problemas clínicos podem se tornar perceptíveis, e o paciente passa a ter sintomas.
 
Diagnóstico das Doenças Valvares
 

Antes de procurar um clínico geral ou um cardiologista (um médico especializado em coração) devido a um problema de válvula cardíaca, o paciente provavelmente já apresenta algum tipo de sinal físico ou desconforto. Alguns tipos de sinais físicos da doença valvar cardíaca são: angina (dor no peito), cansaço, falta de ar ou perda de consciência.
 
Cardiologistas e cirurgiões têm várias maneiras de diagnosticar as doenças das válvulas cardíacas. Em geral, eles começam com testes simples, como escutar os batimentos cardíacos e coletar amostras de sangue. Escutando o coração, os cardiologistas podem ouvir as válvulas abrindo e fechando, assim como os sons da passagem do sangue por elas.
 
Eletrocardiografia
 

A eletrocardiografia (ECG), um registro da atividade elétrica do coração, é uma importante ferramenta usada no diagnóstico de doenças cardíacas. A atividade elétrica é detectada por eletrodos colocados em contato com a pele do paciente. Os impulsos elétricos são registrados na forma de ondas. O ECG fornece informações a respeito da freqüência cardíaca (o ritmo do coração), da presença de danos ao músculo cardíaco, do suprimento inadequado de sangue e oxigênio para o músculo cardíaco e de anormalidades da estrutura do coração. O ECG pode ser feito em repouso ou durante um teste de esforço.
 
Radiografia do Tórax
 

A radiografia do tórax pode ser importante na detecção de depósitos de cálcio no coração, como os que se formam nas válvulas cardíacas. Ela também mostra o tamanho e a forma do coração e dos pulmões.
 
Cintilografia Miocárdica
 

A cintilografia miocárdica mostra características da função cardíaca e do fluxo sangüíneo. Esse exame mostra o tamanho e o funcionamento das câmaras cardíacas (como os ventrículos estão bombeando sangue) e o suprimento de sangue ao coração pelas artérias coronárias. A cintilografia miocárdica é feita com a injeção de materiais radioativos na corrente sangüínea. Eles emitem radiação à medida que percorrem o corpo. Essa radiação é detectada por uma câmera especial, quando o sangue passa pelo coração. Uma imagem do coração é produzida e o tamanho dos ventrículos durante a sístole (quando o coração contrai) e a diástole (quando o coração relaxa) pode ser calculado, bem como o volume de sangue nos mesmos.
 
Ecocardiografia
 
A ecocardiografia é uma aplicação especial do ultra-som. Ondas de ultra-som são enviadas para o interior do corpo para detectar ecos produzidos pelas estruturas do coração. Um computador traduz as ondas sonoras na forma de imagem.

Outro tipo de exame é o ecocardiograma transesofágico, no qual um tubo com uma sonda de ultra-som é inserido pela garganta, por dentro do esôfago, até ficar próximo ao coração.
 
Cateterismo
 
O cateterismo cardíaco (angiografia), processo pelo qual um tubo é inserido nos vasos sangüíneos e/ou no coração, ajuda a avaliar a função das artérias coronárias e das válvulas cardíacas. O tubo injeta um contraste (tinta), que é, então, visualizado com raios-X. A angiografia das coronárias é particularmente útil para analisar os vasos do coração.


Figura 1 - Várias válvulas mitrais, todas com estenose, por sequela de doença reumática. Observe o espessamento dos folhetos (fibrose). Figura 2 - Esquema que mostra a dilatação do anel mitral com consequente afastamento dos folhetos, não permitindo o fechamento da válvula (causa de regurgitação). Figura 3 - Espécimen de válvula mitral, visto em perfil, com doença mixomatosa (degeneração que pode causar prolapso e/ou regurgitação).