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NOTÍCIAS

06/07/2010
Mudança de comportamento é principal desafio para diabéticos


Mudar um comportamento adquirido durante anos, como o de comer o que se quer, é mais difícil do que parece. Para pessoas que descobrem o diabetes tipo 2, em geral após os 40 anos, controlar os gramas de carboidratos consumidos a cada refeição, abandonar os pratos gordurosos e doces e reduzir a quantidade de alimento é mais difícil até do que as picadas para medir a glicose ou tomar insulina.

Todo paciente é orientado sobre os riscos do excesso de açúcar no sangue, como a predisposição a infartos, derrames, doença renal crônica, cegueira e amputação de membros (porque muitos diabéticos perdem a sensibilidade de partes do corpo e eventuais feridas abrem caminho para infecções). Mas todas essas informações não bastam para vencer o desejo de ter uma vida como a da maioria, que come um docinho depois da refeição e toma uma cerveja no fim de semana.

O baiano Nilton Freitas, de 66 anos, custou a se conformar com o diagnóstico, recebido há 15 anos ao fazer exames preparatórios para uma cirurgia de diverticulite. “Eu não queria ter a doença, porque vi meu avô e meu pai, diabéticos, morrerem por hiperglicemia”, conta. Apesar de a mulher ajudá-lo no controle, ele diz que é complicado manter o rigor na alimentação. “Faço a dieta direitinho por uma semana, mas fico duas sem fazer”, brinca. Mesmo com as escapadas eventuais, o saldo tem sido positivo: perdeu mais de 20 kg desde que começou o tratamento no Cedeba (Centro de Diabetes e Endocrinologia do Estado da Bahia), está com a doença sob controle e se sente mais jovem.

“Toda a dificuldade do diabetes está no fato de que ela mexe com o estilo de vida da pessoa”, comenta a endocrinologista Lia Medeiros Carvalho, do Cedeba. E nem sempre gera sintomas acentuados, o que desestimula a mudança de vida – muitos pacientes só descobrem a condição por acaso, ao fazer exames de rotina. É por isso, explica Medeiros, que o tratamento deve ser multidisciplinar, com médicos, nutricionistas e assistentes sociais.

Enquanto o diabetes tipo 2 costuma aparecer na idade adulta, o tipo 1, considerada uma doença autoimune, costuma ser diagnosticada bem mais cedo, na infância ou na adolescência. Se por um lado é duro ter a doença e continuar frequentando festinhas e eventos recheados de refrigerante e fast food, por outro, o fato de receber o diagnóstico cedo faz com que muitos desses jovens adquiram uma disciplina ferrenha mais rápido do que adultos que descobrem a doença.

“Meu filho aprendeu tudo antes de mim”, relata a mãe de Raphael dos Santos, de 16 anos, que teve que mudar todos os hábitos alimentares da família depois de descobrir que o filho tinha diabetes tipo 1, há quatro anos. “Foi um susto enorme”, lembra. O menino começou a emagrecer e sentir sede e, uma semana depois, teve uma crise de hiperglicemia e entrou em pré-coma. Dali em diante, ele passou a assistir às palestras do Cedeba e logo aprendeu a comer “de tudo, mas com moderação”.

Hoje, quando vai ao shopping, o garoto não deixa de pedir sanduíche, como os colegas. Mas escolhe o de frango, que tem menos gordura. Ele também sabe melhor do que a mãe qual a diferença entre produtos light e diet – o primeiro nem sempre é adequado a ele. “Meus amigos olham para mim e dizem ‘poxa, eu devia estar comendo como você’”, orgulha-se.

Para a paulista Isabela de Mello, de 35 anos, que teve o diabetes tipo 1 diagnosticado com apenas um ano de idade e hoje trabalha para a Associação de Diabetes Juvenil (ADJ), o principal desafio não é deixar de comer um ou outro item. ‘’É manter o controle 24 horas por dia, em todos os sentidos”, testemunha. Não só da alimentação, mas também do emocional, já que situações de estresse também podem causar alterações na glicemia.

Autor: Tatiana Pronin