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CRÔNICAS MÉDICAS

Uma maneira de ver a vida renascer
Dr. José Dario Frota Filho

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Fênix - desenho do século 16.

A prática médica antiga era aliada à tradição do renascimento e  dependia, de modo confidencioso, dos mitos que aludiam a um novo tempo ou ao retorno da humanidade às suas origens.

A eles era cedido o poder de transportar os valores e o significado da vida, e através deles se buscava entender as origens, os destinos, os flagelos e a história das enfermidades. Rituais expulsavam doenças e dramatizavam, retornando ao momento puro da criação, assim como as estações do ano eram investidas de mitos e comemorações com conotação de renascimento.

Os egípcios viam os pássaros, especialmente o benu, como mensageiros entre mundos desconhecidos, migrando com as estações do ano, desafiando a gravidade, ultrapassando obstáculos da terra e anunciando profícuos tempos.

Os chineses descreviam sua ave sagrada, o feng huang, com elementos da criação: a cabeça redonda como o céu, os olhos brilhantes como o Sol, as costas curvas como a Lua, as asas livres como o vento e as cores marcantes e incandescentes como o fogo. 

A fênix, ave do Sol, se desenvolveu neste contexto, envolta no simbolismo da renovação do tempo e da vida. Aparecendo em intervalos raros, transformando-se em cinza perfumada e dela ressurgindo, fez com que interpretassem o seu conhecimento sobre o tempo e a morte das mais diversas maneiras.

Múltiplos usos simbólicos da fênix ocorreram através dos tempos. Na tradição rabínica, a ela foi concedida a imortalidade por ter sido a única criatura que recusou a maçã proibida. Em Roma, foi usada como prova da ressurreição e símbolo das virtudes e da alma purificada pelas dificuldades da vida. Os alquimistas, aqueles que procuravam transformar metais comuns em ouro e encontrar o elixir universal da vida, também a adotaram como símbolo. Foi estampada nas moedas e emblemas do império romano, na Inglaterra de Jane Seymour e  nas medalhas da rainha Elizabeth I, geralmente incluindo o motto: “Sola phoenix omnis mundi”.

O transplante de órgãos, de todos os aspectos da prática médica atual, é o que mais estreitamente se relaciona com o enigma do renascimento, ainda hoje presente em muitas culturas. Doadores, símbolo máximo do altruísmo e elo fundamental no ciclo do renascimento, têm suas doações caracterizadas como atos de heroísmo e anunciadoras de tempos novos. Receptores presenciam atônitos o retorno da esperança de viver, amparada por gesto imensurável de amor e doação, de alguém que,      perfumado, em cinza se transforma.

Médicos, enquanto ministros do renascimento, trilham a tênue faixa que separa vida e morte e testemunham inusitados aspectos da existência, por um lado, e sua extinção, por outro. Utilizam o limite do conhecimento e da habilidade para fazer com que o altruísmo do doador só possa ser comparado ao renascimento do receptor.  Administradores de hospitais, provedores de meios, cônscios de suas responsabilidades sociais, tentam transpor obstáculos para angariar condições materiais que viabilizem a realização dos transplantes.

Todos, inspirados nos propósitos da excelência científica e da ética a serviço dos homens, partem para a missão de fazer renascer das cinzas os quase cambaleantes programas de transplante e propiciar vida a quem dela está por um fio. A iniciativa da Santa Casa de construir um hospital exclusivamente dedicado a transplante de órgãos é a consagração da abnegação e do desprendimento médico e administrativo.

Dar a ele o nome de Hospital Dom Vicente Scherer é a justa homenagem àquele que refletiu profundamente sobre as vicissitudes da existência e  optou sempre pelo lado coerente e sábio da vida. É também uma homenagem que ela, Santa Casa, presta à comunidade gaúcha, como generosa retribuição a tudo que esta mesma comunidade tem feito por ela, resultante de um pacto solidário pela vida.

 

O Hospital de Transplantes Dom Vicente Scherer surge à semelhança da ave do Sol, como um anunciador de novos caminhos, de novas vidas e profícuos tempos. É o  renascimento do cardeal, das cinzas para o eterno retorno, materializado no hospital e nas outras obras comunitárias e religiosas que ficaram.

Em consonância, penso eu, não seria demais sugerir a  esplendorosa fênix, incorporando o renascimento do receptor e o altruísmo do doador, como símbolo do hospital de transplantes da Santa Casa. Ainda que o ceticismo da vida moderna tenha esquecido e desvalorizado os mitos, a fênix por certo sobrevive em nossos corações, em silenciosa cumplicidade.

 

Afinal, o crepúsculo de ontem pode ser tão belo quanto a aurora de hoje, posto que o Sol que se pôs ou morreu ontem é o mesmo que renasce hoje. É uma maneira de ver a vida renascer.
 

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