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CRÔNICAS MÉDICAS

Os cuidados ao explicar riscos ao paciente
Dr. Fernando Lucchese



Nós, médicos, lidamos com o ser humano em um momento de anormalidade orgânica e, muitas vezes, psíquica. A doença é sempre inesperada e malvinda. Traz, em sua própria essência, um mau presságio, deixando os pacientes mais vulneráveis e, não raro, com fantasias autodestrutivas. Por isso, a atuação do especialista deve ser toda voltada no sentido de restabelecer a autoconfiança do paciente, permitindo que as esperanças de recuperação cresçam. Nesse, processo, alguns ingredientes são essenciais.

Adotar uma verdade menos prejudicial

A veracidade do médico permite estabelecer uma relação de confiança e dependência, propícia à busca da estabilidade psíquica do paciente e à conseqüente aceitação do tratamento. Mas a há verdades e verdades, e em cores variadas. Apesar de serem essencialmente iguais, algumas doem mais do que outras, dependendo de como são reveladas. Se de forma cruel, preto no branco, podem ser tão prejudiciais quanto uma mentira. Ao informamos a um paciente que seu risco de vida em determinado procedimento é de 5%, por exemplo, estamos sendo infinitamente mais duros do que se lhe disséssemos que tem 95%de chances de sobreviver.

Em situação mais grave, a verdade deve ser atenuada, ou através da simplificação dos fatos ou pela suavização da palavra, dizendo, por exemplo: faremos uma série de exames para que possamos escolher o melhor tratamento, ou em todo o tempo, os riscos que enfrentamos serão evidentemente menores do que não fazer nada. Mesmo em situação de menos gravidade é aconselhável adotar esse discurso mais suave, falando, por exemplo: os riscos envolvidos neste procedimento são mínimos, quase tão imponderáveis quanto os que enfrentamos no dia-a-dia.
 
Ter compaixão e otimismo

A atividade médica reúne um número significativo de incertezas, ou porque não se conhecem as respostas ou porque cada paciente tem seu próprio risco e sua própria evolução, não sendo possível reduzir os casos a um algarismo estático. E, quando não temos certeza, o melhor é termos compaixão, sermos sensíveis e, antes de tudo, otimistas. O sorriso discreto do médico é o melhor dos tranqüilizantes, a compaixão, um remédio barato e eficiente, e o otimismo, parte do exercício da boa medicina.

Transmitir segurança

Independente do risco que se enfrenta, a segurança do médico é sempre certeza de estabilidade emocional para o paciente. Mas transmiti-la é um dom. Quanto maior o risco, mais difícil é essa arte. O médico deve usar menos palavras, cuidadosamente selecionadas, e proferi-las com simplicidade e sem gestos teatrais, pois o paciente analisa-o continuamente, em busca de sinais de intranqüilidade ou insegurança. E a contradição pode ser tão perigosa quanto a iatrogenia.

A informação em números (porcentagem de risco, por exemplo) deve ser concisa e otimista, sempre vista pelo lado do sucesso e do não-insucesso. Os riscos imponderáveis podem ser mencionados, mas não exaltados.

Usar bons argumentos

Muitas vezes, um procedimento de diagnóstico invasivo possibilita a escolha de um tratamento menos agressivo. E esse é o argumento mais eficaz na hora de indicá-lo a um paciente, que raramente se negará a aceitar o que é necessário na busca da melhor opção. A descrição detalhada do exame permite uma aceitação mais consciente, já que geralmente tememos aquilo que desconhecemos. Mas, se a enumeração dos benefícios do procedimento costuma ser favorável, a das complicações tende a ser prejudicial. Além de não auxiliar, assusta. Portanto, é uma verdade que deve ficar de fora, a não ser em situações especiais, de risco definido. Afinal, numa travessia aérea do Atlântico, os riscos não são relembrados a cada vôo pelas companhias, mas a demonstração do uso do colete salva-vidas é uma medida preventiva necessária e, provavelmente, eficaz.

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