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CRÔNICAS MÉDICAS

O Decálogo Médico
Dr. Fernando Lucchese

 

Todos os dias do ano, inclusive sábados, domingos e feriados, são dias do médico. No entanto, 18 de outubro, por tradição, foi escolhido para homenagear essa profissão cativante e envolvente. Para comemorar com meus colegas e pacientes, presentes e futuros, reuni, em um decálogo, alguns ensinamentos baseados, principalmente, nas atividades médicas, nos conselhos de Dr. Willian Osler publicados no The Bulleton of The Jonhs Hopkins Hospital, em julho de 1919, e nos do Dr. John Kirklin, cirurgião cardiovascular da Universidade do Alabama.

 

•    A arte da medicina deve ser aprendida através da experiência, não por herança ou revelação. Aprenda a ver, sentir, cheirar. Aprende-se mais medicina à beira do leito do que em sala de aula. Por isso, não baseie seus conceitos sobre doenças nas palavras ouvidas em conferências ou em livros. Antes, procure ver e, depois, compare. Dois olhos diferentes não enxergam sempre igual. Assim como dois espelhos não refletem exatamente a mesma imagem.

 

•    Passe a maior parte do seu tempo ao lado dos pacientes. Não gaste as horas do seu dia em cima de livros e revistas, o que poderá fazer à noite em casa, mas, quando ver um caso clínico interessante, leia. Suas dificuldades são as mesmas dos que já escreveram sobre o assunto.

 

•    Registre o que você viu. O prontuário médico minucioso ajuda você e seu paciente. Mas não espere, anote logo. A memória provoca estranhas mudanças nos fatos. A silhueta das montanhas no horizonte é muito diferente do que a observação feita durante a escalada. Os detalhes vitais não registrados no momento assumem características muito diferentes quando entregues à memória.  

 

•    Sempre observe e registre o que não é usual. Guarde suas observações, mas não as deixe morrerem com você. Organize seus dados, estude-os, publique e comunique à comunidade médica tudo o que for insólito. Alguns fatos só podem ser apreendidos através de comparação estatística. Historicamente, observações relevantes não surgiram de forma isolada em grandes clínicas. Muitos fatos vieram à luz por meio de médicos do interior. A responsabilidade de revelação de novos conhecimentos está na mão de cada médico.

 

•    Respeite seus colegas. Não há nenhum grupo profissional mais dotado intelectualmente do que outro na classe médica. Não profira uma palavra contra um colega, nem se permita condenar alguém. Você não é juiz. Espere. Tente acreditar no melhor. O tempo poderá lhe mostrar que teria sido injusto e corrido o risco de perder um amigo. Lembre-se: o silêncio é a arma mais poderosa.

 

•    Participe das atividades médicas de seus colegas. Aprenda a conhecê-los. Mas seja reservado no contato com eles e com os pacientes. Fale apenas quando tiver algo a dizer, e diga só o que realmente sabe. Tenha cuidado com as palavras. Elas são perigosas, mudam de cor como camaleão e voltam como boomerang. Comprometa-se somente quando puder e dever.

 

•    Tampouco faça demais. Não use apressadamente novos produtos. Quando tiver que usá-los, busque informações corretas e reais sobre a ação dessas drogas e pesquisa os efeitos secundários. Respeite seu paciente. Não seja o primeiro a iniciar um procedimento ainda não bem estudado, para não ser o primeiro a abandoná-lo.

 

•    Familiarize-se com o trabalho dos outros e dê crédito aos precursores. Respeite a hierarquia, assim como os seus subordinados, reconhecendo o esforço deles. De seus discípulos, virá sua melhor compensação e o reconhecimento mais duradouro pelo seu trabalho.

 

•    Viva uma vida simples e moderada, dedicando grande parte de sua energia à profissão. A medicina é uma amante exigente e ciumenta, que não se satisfaz com pouco. Aproveite seus minutos. Organize seu dia e cada tarefa a ser feita.

 

•    Mas, antes de tudo, ame seu paciente. Respeite-o. Ele é o centro de suas atenções. Faça-o esquecer de sintomas e tristezas pela sua simples presença. Seja carinhoso e simples, conservando, no entanto, a dignidade. Se conseguir cultivar tudo isso ao longo de sua carreira, principalmente com colegas e pacientes, tendo tais qualidades reconhecidas por eles, você poderá considerar-se realmente um médico. 

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