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CRÔNICAS MÉDICAS

Medicina do futuro: a proximidade da ficção
Dr. Fernando Lucchese

 

Durante uma das edições do maior congresso de cardiologia americana, surpreendi-me com um dos oradores, que iniciou sua apresentação dizendo: “Não sou cardiologista, não sou cirurgião cardiovascular, não sou médico. Sou cientista biomolecular e vou-lhes falar sobre o futuro da cardiologia”. A partir daí, ele passou a apresentar uma complicada palestra, em que ficção e realidade pareceram-me indistinguíveis, mas fizeram-me refletir sobre o futuro da medicina.

Os avanços tecnológicos dos últimos anos vêm nos conduzindo a um período de instrumentação sofisticada, onde ainda tem sido difícil separa o útil do supérfluo. O laser é uma realidade emergente que, todavia, não atingiu abrangência, mas traz, em si, uma promessa tentadora. As superfícies de contato com o sangue estão sendo aperfeiçoadas e já permitem a alguns pacientes sobreviver durante meses, à espera de um transplante, às custas de um coração artificial. Mas, apesar disso, a medicina vive em período transitório, de busca de identidade para sua pesquisa. Por certo, nos próximos anos, a instrumentalização sofisticada definirá o seu espaço, demonstrará sua utilidade e suas limitações.

Tal cenário parece preparar o acesso à medicina do século XXI, no qual conceitos serão revisados e recriados, e as idéias mais arrojadas parecerão ingênuas. A medicina encontrará sua linha de pesquisa mais fértil e mais promissora na biologia molecular, ou seja, no tratamento e na prevenção molecular de doenças. Não é de surpreender que, há pouco, a Universidade de Harvard, ao abrir concurso para substituir um dos cardiologistas pediátricos mais proeminentes, selecionou um cientista biomolecular, que provavelmente nunca auscultou um sopro cardíaco em uma criança.

Grande parte das doenças epidêmicas do século XX (a aterosclerose e a hipertensão arterial, por exemplo) tem a hereditariedade como predisponente. A interferência no código genético, sob forma de vacina, permitirá afastar da humanidade tal espectro. Com isso, o infarto do miocárdio, hoje responsável por 15% das mortes, poderá ser uma doença tão rara e inofensiva como a tuberculose.  O mundo dos transplantes, que hoje amarga desde dificuldades de doação a crises de rejeição, receberá da engenharia genética soluções. Já é uma promessa e será realidade o processo de clonar, em animais, órgãos biologicamente iguais ao do receptor, a partir de células humanas.

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