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CRÔNICAS MÉDICAS

A horta do meu avô
Dr. Fernando Lucchese

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Meu avô fechou o terreno com um muro, limpou, adubou, lavrou a terra, e, de suas mãos milagrosas, terminou nascendo uma bela horta

Um dia, meu avô decidiu que as coisas seriam diferentes. Estava cansado da vida da cidade, onde se sentia um corpo estranho. Não lhe saia da cabeça seus bons tempos de interior. Numa manobra absolutamente inesperada, comprou um terreno de esquina a duas quadras de sua casa. Era um desses terrenos baldios onde lixo e poeira se misturam. Meu avô fechou o terreno com um muro, limpou, adubou, lavrou a terra, e, de suas mãos milagrosas, terminou nascendo uma bela horta.

Tomates magníficos, couve, alface americana e até moranguinhos surgiram milagrosamente do chão. Todos os dias, meu avô passava algum tempo cuidando da horta e preparando sacolas de produtos para distribuir a filhos e netos. Os vizinhos, intrigados, espiando pelo portão ou de suas janelas, acompanhavam tudo e não acreditavam no que viam. Ao redor, asfalto, casas, edifícios. Ali, ao centro, bravamente florescendo, a horta do meu avô. Um suplemento rural do jornal Correio do Povo registrou na época, como curiosidade, uma imensa mandioca colhida em plena cidade. Meu avô estava feliz de voltar para a terra. Depois, percebeu que os vizinhos também. A horta fez bem para todos.

Tenho usado a horta do meu avô como modelo de mudança. Nem tudo que está plantado em nossa vida é imutável. Ao contrário, quase tudo pode ser mudado; muito pouco é estável e definitivo. A dificuldade maior é vencer a nossa mente, que sempre considera os fatos como inexoráveis, as derrotas como sem recuperação e as perdas como irreparáveis. A cabeça do meu avô admitia qualquer tipo de mudança, inclusive a de transformar um pedaço de cidade em uma horta particular. É um privilégio poder contar com uma mente dessas, que sabe ver as oportunidades em terrenos cobertos de lixo.

Dois observadores distintos, ao descrever uma rosa, terão enfoques diferentes; um apreciará seu perfume, o outro elogiará suas cores. Mas somente os sábios se farão a pergunta: “como eu faço para cultivá-las e compartilhá-las com os demais?”. São muito poucos os que plantarão hortas em plena avenida. Uma boa dose de sabedoria é necessária para isso.

A mudança geralmente parte de uma insatisfação, de uma necessidade. Se me confesso infeliz, procuro achar uma saída. Ou seja, confesso-me e, em seguida, converto-me para uma nova situação. Confessar-se gordo, estressado, sedentário, seja o que for, é o primeiro passo para a conversão. Mudar com sucesso exige coragem, inteligência, bom senso, determinação. E, às vezes, criatividade. Meu avô resolveu com criatividade a enorme falta que lhe fazia a terra. Acreditava em sua horta. E ela restabeleceu suas origens, o que o deixou mais feliz. Mas foi preciso muita sabedoria para investir em um terreno baldio para plantar uma horta.

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